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Como me tornar um terapeuta no mundo de hoje? (Série Atendimento Terapêutico 2)

Como me tornar um terapeuta no mundo de hoje?
(Série Atendimento Terapêutico 2)

 

Muitas pessoas me fazem esta pergunta. Eu mesma não sou psicóloga formada por um Instituto de Psicologia. Eu fui diretora de Pesquisa de Mercado da Editora Abril, professora universitária na USP  na área de sociologia da cultura e da ESPM na área de Psicologia do Consumo, depois fui empresária na área de Pesquisa de Mercado. Quando veio o Plano Collor senti que precisava ouvir um chamado interno e me concentrei totalmente em estudar para me tornar terapeuta. Estudei muitos métodos interessantes: Análise Bioenergética, Biossíntese, Hipnose Ericksoniana, depois EFT, etc. Mas foi estudando Atendimento Clínico com professor Gilberto Safra (USP), devorando seus livros e ouvindo seus cursos que realmente me tornei uma terapeuta. Fui analisanda durante muitos anos, talvez isso tenha ajudado, mas o trabalho pessoal e o conhecimento de como atender foi principalmente com Gilberto Safra que aprendi. Amo o EFT, sou amiga e colaboradora de Gary Craig, justamente porque o EFT respeita alguns princípios clínicos que aprendi com Gilberto serem fundamentais para o atendimento de pessoas e que aqui reproduzo. Para mim tornar-se um ou uma terapeuta implica em  compreender e poder aplicar na clínica estes princípios.  Estes são os principais princípios clínicos:

1.)    a singularidade do cliente é mais importante do que qualquer diagnóstico psiquiátrico ou psicológico. A pessoa é mais complexa que qualquer categoria que tente classifica-la. E surpreenderá se for contemplada em sua singularidade. O diagnóstico é apenas uma descrição que não dá conta do fluxo que somos enquanto seres humanos.

2.)    o momento e o ambiente social familiar, econômico, histórico, cultural em que a pessoa vive precisa ser levado em conta para a compreensão de qualquer crise ou sintoma. São elementos fundamentais da subjetividade do nosso paciente. 

3.)    qualquer experiência humana é intersubjetiva e o encontro paciente-terapeuta é intersubjetivo, ou seja, o que acontece na sessão é uma criação deste par que permanece um par mas que cria algo que cada elemento do par não criaria sozinho. Não somos terapeutas que cuidam de pacientes, mas estamos juntos em comunidade de destino, ou seja, numa união onde nos sentimos comprometidos com suas possibilidades e seus sentimentos. Disponíveis para eles desde nossa alma, a serviço deles integralmente, numa dupla que transcende qualquer uma das duas individualidades. 

4.)    Cuidamos do Ser da pessoa ou da pessoa que precisa vir a ter um Ser constituído e não de categorias de doenças ou patologias. E para isso vamos em busca da experiência de si do nosso paciente ou da falta de um si mesmo que precisamos ajudar a constituir. Quando falamos de experiência falamos de imagens que significam qualidades afetivas, por exemplo “sinto um quentinho, sinto um frio no estomago, sinto um aperto no peito, sinto uma expansão do coração”. Essas qualidades afetivas são imagens estéticas que nos falam de experiências que os pacientes, na nossa presença, passam a compreender e ressignificar para construir novas possibilidades. Onde havia um trauma torturando por anos em silencio uma pessoa, passa a haver uma experiência estética (afetiva e qualificada) vivida com o terapeuta, ressignificada para ser superada. 

5.)    O importante é que, com estes procedimentos, escapamos da verbalização abstrata, só mental, sem ancoragem corporal que, a meu ver, não conduz a uma constituição de si cada vez mais completa. 

6.)    O atendimento clínico, para se manter ético e ajudar de fato o paciente, precisa atentar para o que é o Ser da condição humana ou, em outras palavras, quais são as suas condições ontológicas. Isto é, o que compartilhamos com todos outros homens e mulheres. Nesta condição está envolvida nossa vulnerabilidade, nossa precariedade, nosso anseio por liberdade e criatividade, nosso existir em fluxo contínuo, nossa condição de ser de fronteira: entre o ser e o não ser, entre o finito e o infinito. No atendimento  precisamos poder reconhecer as fraturas que vem da biografia ou da história individual e as fraturas ontológicas que são desafios ao nível do Ser que não puderam ser acolhidos pelo ambiente. Por exemplo, uma criança bem pequena que vem correndo, tropeça e cai. Seu choro é muito maior do que o tombo e o machucado justificariam. Por que? Porque ela viveu neste momento a experiência da vulnerabilidade humana e entrou em desespero. Se seus pais a acolhem, compreendem, dizem que foi um susto, que vai passar, que eles estão lá, isso se torna referencia para a criança viver o desafio ontológico. No entanto se eles dizem, ok levanta daí e vamos, não foi nada, em tom meio irritado e ríspido, a criança não desenvolve o folego para ir enfrentando os desafios que nossa condição ontológica nos coloca. (este exemplo foi dado por Gilberto Safra num grupo de estudos). 

7.)    Enfim, mas muito importante: somos seres em fluxo e seres que se comunicam o tempo todo, precisamos do outro para ser, para nos constituir, para criar fôlego para a vida. E a clínica é um lugar acima de tudo de comunicação experiencial entre duas pessoas, que permite ao paciente abraçar sua vocação essencial e existencial.

No mundo de hoje, onde a tecnologização da vida e a digitalização transformaram o ambiente humano em um lugar com cada vez menos experiências a nível do ser, estes princípios clínicos não são, a meu ver, uma opção mas são uma necessidade para se praticar uma clínica ética.

ACADEMIA CLINICA
Sonia Novinsky
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Psicoterapeuta . Diretora do Centro Gary Craig de Treinamento em EFT Oficial no Brasil. Atendimento on line e presencial. Supervisão em grupo para EFT Oficial ( tapping e Optimal). Práticas grupais de EFT. Contatos pelo whats: 11999941415

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