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Como um trauma pode vir a se transformar em vocação? O caso Bia: acessos de Pânico em função de maus tratos vividos na infância

Como um trauma pode vir a se transformar em vocação? 
O caso Bia: acessos de Pânico em função de maus tratos vividos na infância

Acabo de receber para tratamento uma paciente que sofre com acessos de pânico, seguidos por ondas de ansiedade “insuportáveis”. Veio encaminhada pelo psiquiatra, bastante consciente do papel da psicologia e da importância ocupado pelo inconsciente humano nos casos de adoecimento emocional. O psiquiatra foi certeiro: “você precisa de um psicólogo para poder lhe ajudar a compreender os gatilhos inconscientes que lhe despertam toda essa ansiedade”. De imediato pensei que o nosso tratamento já havia começado antes mesmo dela me procurar, lá na sala do doutor.

Quem dera todos os colegas psiquiatras tivessem a sensibilidade e consciência que o doutor G. teve. Com toda a certeza, viveríamos um outro panorama de saúde mental no mundo. Mas isso é assunto para outro momento. O que desejo fazer aqui é conversar sobre o caso da paciente. Chamarei ela de Bia.

Bia, 20 anos, veio buscar ajuda em função do ataque de ansiedade que teve (ela chama o ataque de pânico). Conta inicialmente que o ataque é o mesmo que ocorreu quando tinha por volta dos 12 anos. Ao lhe perguntar o que vivera naquela situação, ela menciona que na época não suportava mais ver a mãe ser violentada pelo pai. Bia conta de um episódio (ela não consegue distinguir entre fantasia e realidade sobre o ocorrido) em que estava com os pais dentro do carro e do nada o pai começa a bater a cabeça da mãe contra o painel. O não discernimento sobre se a situação era real parece ser uma certa resistência perante o impacto que a situação tem nela. Bia, muito provavelmente, ficara tão impactada pela cena que não lhe resultou outro artificio a não ser o de transformar a crueldade do ato em ficção imaginária. Essa foi a defesa utilizada por ela para não entrar em contato com tamanho sofrimento que a cena causara.

Atualmente Bia vive um dilema: dedicar seu tempo em tono de uma causa, onde passa o dia recolhendo cães na rua, submetidos a maus tratos, para cuidar (Bia se intitula PROTETORA dos animais e criou uma ONG para se dedicar a eles) ou destinar tempo integrar a faculdade de Direito que iniciou faz pouco tempo. Tem ainda o namorado que não está nada satisfeito com o fato de ser deixado de lado em função de “outras coisas”.

O último cãozinho que Bia recolheu estava praticamente sem vida e teve que passar por várias cirurgias. Inicialmente ela havia sido solicitada somente para ajudar na situação, mas como sempre acontece, não conseguiu apenas olhar sem se entregar completamente. Acabou levando o cão para casa e acumula mais de dez mil reais em dívidas em função dos procedimentos que ele teve que passar. E ela reitera: “ainda não terminou, pois ele ainda não está bem”. Dando a entender que mais grana será investida no bichinho.

Quando questiono se Bia acredita que poderá salvar todos os cães do mundo, ela diz que gostaria, mas sabe que isso seria impossível, porém não consegue não ser tomada completamente pela situação. Ela diz “não suportar” ver um cão sofrendo, desprotegido, diz sentir muita pena deles. Pergunto se já sentiu algo parecido em outras circunstancias da sua vida. Ela para pôr um instante, pensa em algo por algum tempo e retorna logo em seguida como se estivesse retornado de um sonho e diz: “não, ACHO que não”. Pergunto: “você ACHA”? Ela diz que não sabe ao certo, mas que passou muita coisa na infância e que tudo é muito confuso para ela. Diz estar perdida, sem saber o que fazer, pois se pega fazendo coisas completamente diferentes e que não fazem sentido.

Questiono sobre o que está pensando ao dizer isso. Que coisas diferentes são essas a que se refere. Fala então sobre a dúvida entre seguir a faculdade de direito ou cuidar dos cães, ou fazer veterinária que, segundo ela, teria muito mais a ver com a sua dedicação pelos bichos. “Qual é a lógica de fazer duas coisas tão nada a ver assim”, questiona ela.

De imediato sou tomado pelo impacto daquilo que ela me diz e devolvo a pergunta: “o que é tão nada a ver assim? Será que ser Protetora dos Animais é tão distante de Proteger o Direito das Pessoas?”. Ela parece paralisada com a pergunta. Aproveito a circunstância, a abertura produzida nela, a baixa das suas resistências e emendo: “você já parou para pensar o porquê essa causa que você luta faz tanto sentido para você? Quem tanto você queria proteger e nunca pode, quem tanto você viu sofrer e nunca pode fazer nada, de quem tanto você tinha pena?”. Bia para, olha com os olhos arregalados para mim e a primeira gota de lágrima cai, seguido por um choro compulsivo que dura alguns segundos.

Essa parece ser a trama vivida por Bia em sua vida. Viu nos cães a possibilidade de destinar uma demanda interna que nunca pode ser saciada no contato com os pais. Durante toda a sua infância viu a mãe sofrendo agressões do pai, sem nunca pode fazer nada. Os cachorrinhos indefesos que sofrem na rua são projeções dessa mãe. Por isso todas as vezes que vê um cão nessa posição é completamente tomada pela situação, pois inconscientemente sempre são situações que "lembram" a mãe.

Internamente o registro de maus tratos está sempre como núcleo fundamental aquilo que viu a mãe passar passivamente. Hoje, ativamente, tenta modificar todas as situações de maus tratos que vivencia. Os acessos de pânico, a ansiedade incontrolável, parece ter raízes nessas situações, onde via a mãe ser agredida pelo pai, ficava mobilizada internamente e não podia agir. Da mesma forma parece ser com os cães, onde cada um que se depara pela rua desperta esse montante de sentimentos armazenados em seu inconsciente.

Ao poder lembrar dessas situações, Bia pode dar um novo sentido a essas sensações e sentimentos. Pode, agora, colocar sobre seu controle esses acessos que antes apareciam à revelia do seu EU. Agora Bia já pode nomear, já pode antecipar o que está acontecendo e já pode se acalmar diante do fato. Essa é apenas a segunda sessão de Bia. Os acessos ainda acontecem, a ansiedade ainda é grande, a indecisão sobre o que fazer da sua vida, obviamente, ainda não se dissipou (se é que um dia se dissipará), porém, atualmente, Bia tem a compreensão de que a sua vida, muito provavelmente, sempre será “guiada” por essas situações que viveu ao longo de sua vida até aqui.

Intuitivamente ela sabe que, ser PROTETORA, é uma questão vocacional para ela. Não há sentido nessa vida que não passe por isso. Que não passe pela Proteção dos direitos dos fragilizados (sejam eles pessoas ou animais, não importa). A questão é poder não deixar que a sua história lhe domine, mas que possa colocar aquilo que lhe aconteceu sob o seu próprio domínio, transformando aquilo que lhe aconteceu em um sentido de vida. Parece ser este o auxílio que a terapia poderá promover na vida de Bia.  

P.S – Até o momento Bia não mencionou nenhum tipo de agressão física que ela mesma tenha sofrido, porém cogito a hipótese de que mais coisas tenham ocorrido. Também me chama atenção o fato de que ela atualmente diz não sentir raiva desse pai, dando a entender de que os seus ataques de ansiedade possam ocorrer justamente pela repressão desse sentimento que não se permite sentir. Afinal, como ela mesma disse “pai é pai né, e sem contar que ele me ajuda muito com os cães e apesar de tudo ele é um homem muito bom. Só com a minha mãe que ele é ruim. Ele parece ter uma obsessão por ela”.

Há um longo caminho a ser trilhado por Bia ainda... acho que aquilo que um terapeuta sempre deseja, é que o paciente resista e tenha forças para ir o mais longe possível nesse processo tão longo e árduo que é o de navegar para dentro de si.

 

*Rodrigo Stürmer é psicólogo, especialista em psicologia clínica. É responsável técnico pela clínica psicológica do Sest Senat e atua em consultório particular. Faz também atendimentos pelo Skype. E-mail: rodrigo_sturmer@hotmail.com

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