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O poder terapêutico e o trauma ligado a uma situação específica

O poder terapêutico e o trauma 
ligado a uma situação específica

 

O trabalho clínico é sempre surpreendente. Por mais tempo e experiência que o profissional tenha, ele sempre acaba sendo surpreendido por situações inesperadas e as vezes encantadoras. E é sobre um desses acontecimentos que vou falar hoje aqui.

Vou chamar a paciente de Ana. Ela me procurou na metade do ano passado para poder entender (e buscar modificar) a sua relação com o dinheiro. Tudo para ela girava em torno das finanças. Ela era uma máquina de fazer dinheiro, porém a energia que vinha investindo para isso lhe consumia todas as horas do dia. Era comum ela retornar para casa tarde da noite, tomar um banho e apagar na cama, sem mesmo se alimentar. O marido e o filho estavam sendo deixados totalmente de lado.

A única coisa de valor que existia para Ana era o dinheiro que ela conquistava. Todas as manhãs ela seguia a mesma rotina: abria os olhos, pegava o celular e verificava no aplicativo do banco o seu extrato financeiro. Ela mesma já não suportava mais viver em torno do dinheiro. Ela sentia, cada vez mais, que a própria vida estava ficando de lado. Ela não desligava nunca, ela estava plugada 24 horas na tomada, corria o dia todo atrás de clientes.

Era impressionante e desesperador de ver. Era comum ela entrar dentro da sala de atendimentos digitando no celular. Na sala de espera ela sempre estava de cabeça baixa digitando. Um dia perguntei o que ela tanto fazia, com quem ela sempre tanto falava, ela me respondeu sem titubear: “conquistando clientes, tentando faturar mais”. Ou seja, tudo na vida dessa mulher era clientes, quase todas as relações que ela fazia era como forma de faturar.

Conforme íamos conversando ficava mais claro que todas as relações que ela estabelecia na vida era por puro interesse comercial. Ela quase não tinha outro tipo de relação que não fosse com o intuito de ganhar dinheiro. Conforme trabalhávamos em sessão começavam a aparecer algumas coisas que entristeciam Ana e que lhe faziam parar.  As sessões eram quase sempre a caricatura da vida de Ana lá fora, uma correria total onde ela falava freneticamente o tempo todo sobre tudo, não dando praticamente espaços entre uma frase e outra. Ela era o tipo de paciente que literalmente tonteava o terapeuta.  

Comecei a perceber que o ritmo de Ana diminuía conforme ela entrava em contato com as suas dores. Ana teve uma infância muito difícil, foi abandonada pelo pai muito cedo, sendo criada apenas pela mãe que era uma mulher muito brava e rígida. Passaram muitas dificuldades financeiras e a busca dela pelo dinheiro era a forma que Ana arranjou para negar tamanho sofrimento passado na infância. Começava a fazer sentido a guerra que Ana travava dentro dela: poder pegar leve e correr o risco de viver a mesma situação do passado ou correr o tempo e não ter uma vida decente. Ou seja, o correr era sempre a única saída.

Numa das últimas sessões de Ana, já mais calma e podendo transformar internamente muita coisa, ela mencionou no meio de uma conversa que não bebia leite e nem comia queijo. Aquilo me chamou atenção e resolvi por pura curiosidade investigar o porquê disso. Perguntei se ela lembrava qual representação o leite tinha na vida dela. Ana parou, me olhou e uma lagrima escorreu. Lembrou que quando era criança, no meio de tantas dificuldades e sem dinheiro para comprar leite, a mãe colocava café preto dentro da sua mamadeira. Disse que a vida toda o café sempre a acompanhou e sempre foi seu parceiro nos piores e nos melhores momentos.

Lembrou também que havia um senhor que, alguns anos depois, quando já era mais moça, sempre deixava na casa em que vivia alguns litros de leite e dizia “pobrezinha, ela precisa se alimentar, ela está tão magrinha”. Menciona que não suportava receber aquele olhar de pena e que o leite havia tomado um significado de miserabilidade. Leite era coisa de pobre!

Assim se estabeleceu nela a crença de que beber leite seria o atestado de pobreza, de coitadismo, seria a miséria concretizada em forma de leite. O simbolismo que o leite teve na vida dela era o significante de toda a pobreza e dificuldades que passou na infância. Da mesma forma que fazia com o leite fazia com a própria vida, ia ignorando, negando tudo aquilo que lhe fazia lembrar da infância. Era impossível se deparar com tamanho sofrimento e a forma que aprendeu para evitar isso foi correndo o dia todo, não tendo tempo para parar e refletir sobre as próprias atitudes. Como bem referia, nos momentos que parava ela simplesmente apagava e adormecia.

A terapia foi a única coisa que foi capaz de pará-la sem que precisasse dormir. A terapia restaurou nela a capacidade de pensar, de refletir e de significar as próprias vivencias, antes totalmente soterradas pela negação. Na sessão seguinte, Ana menciona que, pela primeira vez na vida, bebeu um copo de leite e saiu com amigos comer uma pizza de 4 queijos. A conclusão dela foi a seguinte: “sabe que eu até que gostei”.

Ana é o retrato do poder terapêutico. Daquilo que palavras são capazes de fazer; palavras que se assertivamente e carinhosamente colocadas são capazes de transformar uma vida e não somente uma situação.


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