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Sintomas e a questão central (core issue)

Sintomas e a questão central (core issue)

Pergunta de uma aluna:   Se a pessoa tem vários sintomas preciso encontrar vários eventos específicos, cada um sendo a causa de um sintoma ou  há um evento específico principal que é responsável por todos os sintomas? Por exemplo, uma pessoa, como eu, que sofre de dificuldade em falar em público e também de  procrastinação. Parecem ser coisas completamente diferentes, oriundas de eventos-chave diferentes, sem relação um com o outro. Como pode a causa principal ser a mesma neste caso? Não teria que ir atrás de  eventos-chave diferentes, um para cada sintoma? 

Sonia Novinsky responde: Precisamos ter clareza sobre os conceitos que trabalhamos no EFT. Uma coisa é o sintoma ou  incômodo (no caso, medo de falar em público,   procrastinação, que do ponto de vista do paciente seria: sinto desmotivação para as tarefas que me proponho).  O segundo conceito são os eventos específicos. No caso de emoções e comportamentos humanos  nunca existe uma causa única. Os eventos de uma vida são muitos e são fatores que em conjunto vão contribuir para a criação de um padrão ou de um sintoma que se repete, bloqueando o fluxo da vida. Não existe um único evento causador. Na clínica eu prefiro não usar este enfoque que fala em causa-efeito. Os eventos traumáticos estão na origem de sintomas, sim, mas há muitos fatores complementares. Sabemos que a resposta emocional da pessoa ao evento é realmente decisiva. É imprevisível uma resposta a uma humilhação numa criança de 5 anos. É provável que seja um evento traumático, mas há crianças que tem recursos pessoais e conseguem reagir bem e não se ferir com uma humilhação. Para outras a humilhação pode ser fatal e criar um sintoma. Vamos aos poucos descobrindo estes fatores que contribuíram para o estabelecimento de um sintoma. Sempre precisamos focar nos leques de respostas emocionais aos eventos desafiadores vividos. Geralmente um sintoma ou um padrão se origina de um leque de eventos difíceis que foram vividos. Gary sempre fala de eventos específicos no sentido de que você não deve ficar com uma frase geral, por exemplo "minha mãe sempre me dizia que eu era muito burra". Você precisa ir a cada evento que aconteceu no espaço e no tempo e para cada resposta emocional a ele.

Eu vou um pouco além nesta busca. Gosto de procurar a questão central do paciente ou seu core issue. E esta questão é sempre ligada a como os eventos específicos (que acontecem no espaço e no tempo e portanto são chamados ônticos) são atravessados pelas  dimensões ontológicas do ser humano. Isto é, as dimensões que compartilhamos com todos os seres humanos, questões originárias portanto, como vulnerabilidade, finitude, instabilidade, desamparo, abandono, infinitude, liberdade, abertura para o outro,  etc*.

Um desamparo vivido na infância, por uma negligência materna por exemplo, pode deixar a pessoa sem recursos para fazer face a nosso desamparo ontológico que sempre nos surpreende durante a vida e, assim, constituirá defesas, que são sintomas e padrões que a protejam deste confronto com estas explosões do ontológico em nós. A questão central da pessoa será o desamparo no caso do exemplo acima e o trabalho terapêutico será o suporte, a confiança, a consciência oferecidas pelo terapeuta na relação para que possa compreender o que viveu na infância e ampliar seus recursos para viver o desamparo ontológico que a atravessa inevitavelmente.     

Você que me escreveu tem medo de falar em público, sim este é seu sintoma, mas não sabemos qual é sua questão central. Talvez você tenha sido humilhada, talvez você tenha se sentido inferiorizada, algo houve aí e a desmotivação para executar suas tarefas pode estar ligada a este medo. Faz muito sentido a desmotivação quando se tem medo da exposição. Na sua terapia vocês podem trabalhar tudo isso. Mas aqui o que quis mostrar é que devemos ter uma compreensão clara dos conceitos: especificidade, eventos específicos, sintomas (do ponto de vista de quem vai ser tratado), questão central. Na questão central você vai achar o que sua ferida ôntica a vulnerabiliza para fazer face às nossas características ontológicas. Mas, muito importante, ali podemos reconhecer a singularidade deste paciente e seus maiores recursos e potenciais. Atendi uma paciente que, quando criança, nunca foi ouvida ou vista, se sentiu desprezada desde muito pequena. Frente a essa ferida se transformou em intérprete de grandes audiências. Buscou um trabalho em que ser ouvida era uma necessidade de muitas pessoas. Ainda que traduzindo para muitos a verdade de outras pessoas,  de alguma forma era ouvida. Depois de alguns meses de trabalho consigo pôde ser candidata em uma eleição por um partido sinceramente inovador. O que representou um progresso pessoal na medida em que passou a defender sua verdade publicamente. Ela transformou sua dor de forma criativa em um caminho para si na vida. Podemos assim chegar a destinar nossas dores na direção de um caminho construtivo socialmente. É belo isso, não acham?                 

*Gilberto Safra introduziu esta abordagem que diferencia a dimensão ontológica da dimensão ôntica na clínica e me parece extremamente útil para compreender o nosso paciente e encontrar uma forma de ajudá-lo. No curso Condução do Percurso Clínico eu detalho melhor estes conceitos. Se quiserem estudar os ensinamentos do Prof Gilberto Safra, podem ir ao site do Instituto Sobornost: www.sobornost.com.br

 

ESTÃO ABERTAS AS INSCRIÇÕES PARA O TREINAMENTO COMPLETO NO EFT OFICIAL. VEJA EM NOSSO SITE 

ACADEMIA CLINICA
Sonia Novinsky
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Psicoterapeuta . Diretora do Centro Gary Craig de Treinamento em EFT Oficial no Brasil. Atendimento on line e presencial. Supervisão em grupo para EFT Oficial ( tapping e Optimal). Práticas grupais de EFT. Contatos pelo whats: 11999941415

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