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Uma Matriz Clínica para o mundo atual

Uma Matriz Clínica  para o mundo atual

 

O atendimento clínico em psicoterapia tal como conhecemos hoje começou na Europa e nos Estados Unidos, de forma diferente, a partir do final do século XIX.  

Ao longo da história do atendimento terapêutico, desde o início da Psicanálise (início de 1900), podemos reconhecer que em cada época temos a predominância de pacientes apresentando um tipo de  problemática clínica diferente, o que chamamos de matriz clínica*. As problemáticas clínicas típicas dependem do momento histórico no qual surgem, com suas características sociais e culturais específicas.

Desta forma, os grandes clínicos do século XX foram criando, a partir do que observavam nas suas sessões, matrizes clínicas diferentes. A  matriz clínica  encontrada e nomeada por Freud (no início do século XX)  foi a paciente histérica, que trazia questões que eram fruto de uma moral vitoriana, rigorosa e onde a repressão sexual era expressiva.  Bion, que viveu durante o século XX (morreu em 1979), já encontra pacientes psicóticos e sua matriz clínica é a do paciente esquizofrênico, pois lhe procuravam  sobretudo pessoas portando dissociações severas e fragmentações graves da personalidade. Paralelamente, no século XX,  a matriz clínica de Winnicott é diferente, talvez ligada aos sofrimentos da Segunda Guerra e encontramos o que se chama dos pacientes borderline,  que são casos bastante graves de ansiedades psicóticas.

Essas são tendências clínicas que vão surgindo ao longo da História, mas ao mesmo tempo temos que olhar estas matrizes com cuidado porque, como venho sempre afirmando, as pessoas não são classificáveis em rótulos.

São como formas de adoecimento predominantes mas, em cada caso, precisamos aprender como o cliente singular se apresenta para nós.

Hoje temos o aparecimento de uma nova matriz clínica. São pessoas  que não se sentem existindo, sendo. Pessoas que não se sentem reais. Isso é um sofrimento terrível. Como se estivessem exiladas, sem lugar, sem destino, perdidas, pessoas que não se sentem pertencendo a este mundo. As vezes, para se sentir reais, se cortam, arrancam pelos e cabelos, se suicidam ou se drogam ou aderem sem critérios ao mundo virtual.

Estes dias uma madrasta me procurou para falar do filho de seu marido que até já trabalha, tem  pouco mais de 20 anos, tem bom coração, mas vive sem se comunicar de uma forma que o permita se sentir real. Não sai do quarto a não ser para trabalhar ou quando seu pai o convida para uma pizza no domingo. Fica jogando no celular ou na internet e quase não se comunica. Foi se fechando ao longo dos anos. Namorou uma vez mas não foi para frente e logo acabou. Não tem amigos. Ele está perdendo cada vez mais a possibilidade de se sentir real, de ser, de existir, de criar um sentido para sua vida.

Muitos casos como este vêm hoje à terapia. Desde crianças até jovens adultos que precisam constituir um si mesmo através de um diálogo, se comunicando, se compreendendo, nomeando e dando significados às experiências passadas e sentido às experiências presentes. E este é um processo que nunca pode ser solitário. É necessário uma ajuda de algum tipo. O adoecimento nestes casos, nos fala Gilberto Safra, é do ser e sente-se que a falta de comunicação verdadeira, real, autentica,  vai criando nestas pessoas a perda do si mesmo. Há as que vivem agonias, há as que não sentem nada, como que anestesiadas, mas sempre uma falta de constituição de um si mesmo está presente. Uma sensação de não se sentir real.

Há uma combinação de fatores familiares, individuais, históricos, culturais em jogo para esta fratura no Ser. E  na clínica vamos desvendando estas quebras, estas faltas de referencias significativas.  Vamos vendo como a digitalização entra neste processo, como a escola, a família e outros ambientes falharam nesta busca do paciente se sentir real. E, assim, talvez podemos reverter esta tendência e suas gravíssimas consequências.

Criei a Academia Clínica com a intenção de criar este dialogo verdadeiro entre terapeutas sobre as necessidades do atendimento clínico contemporâneo. Muitas pessoas sofrendo deste sentimento de não se sentir reais vão buscar ajudar o próximo para poder sentir-se existindo e pertencer a este mundo. Por isso eu vejo o crescimento enorme do número de pessoas querendo ser terapeutas, mesmo sem terem feito a escolha de psicologia como sua primeira carreira.

É verdade que estar disponível para o outro oferece um sentido de realidade para nós que vivemos este momento presente com seus desafios. Mas, ao mesmo tempo, ser terapeuta exige uma formação, um estudo, um trabalho sobre si mesmo que é intenso, disciplinado e para toda um vida.

A Academia Clínica, como um espaço de diálogo entre terapeutas de diversos níveis de experiência, tem portanto esta intenção de ajudar os que querem ser terapeutas e assim dar um sentido à suas vidas e realmente poderem compreender os requisitos deste trabalho. Eles vão além da intenção de ajuda e da necessidade de salvação do próprio terapeuta.

No caso dos nossos pacientes atuais, que nos trazem este drama de se sentirem fora da vida, perdidos de si mesmos, o mais importante é encontrar no breu da solidão que vivem, um canal de diálogo, de comunicação, sem interpretação, sem julgamento. Muitas vezes precisamos sair do consultório para poder clinicar. A prática do Acompanhamento Terapêutico muitas vezes é complementar. Mas é preciso uma imersão na singularidade de cada um, se colocar em comunidade de destino com o nosso paciente e tentar o diálogo, um espaço de criatividade, para que ele possa de alguma forma se sentir vivo e real. É um longo trabalho que não posso detalhar aqui, mas que depende de paciência, amorosidade, enquadre, compaixão, flexibilidade.

É uma tentativa de ajudar nossos terapeutas ou as pessoas para que possam criar diálogos verdadeiros com seus pacientes e ajuda-los a encontrar uma vocação que faça sentido, uma vocação existencial e não só profissional.  Que é condição para nos sentirmos reais, presentes, pertencentes a uma comunidade à qual contribuímos significativamente.

 

 

 

ACADEMIA CLINICA
Sonia Novinsky
Sonia Novinsky Seguir

Psicoterapeuta . Diretora do Centro Gary Craig de Treinamento em EFT Oficial no Brasil. Atendimento on line e presencial. Supervisão em grupo para EFT Oficial ( tapping e Optimal). Práticas grupais de EFT. Contatos pelo whats: 11999941415

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